CONTOS DE LER AO DEITAR
A ESPIRAL DAS CORES PERDIDAS
Crescer não é só riscar os dias do calendário mas sim acrescentar todos os dias um bocadinho aos sonhos
Se há segredos bem guardados esses, são aqueles que habitam para lá dos planos superiores onde as ervas, flores, montanhas, rios, árvores e casas convivem com a luz do sol, o correr do vento, a alegria da chuva e as traquinices da neve.
Nesse Outono, quando as primeiras folhas se despediam das árvores e os morcegos pintores as coloriam de tons quentes e arrojados, todo o Bosque se entretinha na apanha dos frutos para a feitura de compotas e acepipes pois, o Inverno estava quase a desçer das bandas do Montes Vermelhos onde Gwennharold, a Rainha das Neves habitava.
Era ela quem ordenava que fossem abertos os Portões de Tandar. Portões de cristal e ouro que, uma vez abertos, deixavam sair os quatro cavalos alados que em turbilhões sinuosos espalhavam por todos os cantos as primeiras neves, levando consigo as últimas folhas das árvores, colhendo as últimas flores para adornarem as jarras das salas do palácio da rainha e, por fim, com um sopro que lembrava as canções das antigas sagas, congelavam os lagos e riachos.
Depois deles, todo o bosque descansava sobre um manto branco e puro e toda a natureza esperava adormecida pelos primeiros acordes de Eleonora, a Rainha das Brisas Suaves que percorria o céu no seu carro puxado por borboletas turquesas espalhando por toda a parte os primeiros rebentos para que, em breve, todo o Bosque estivesse de novo sobre um tapete de cores, aromas e o reboliço das novas novidades e descobertas.
Por agora, era a vez dos Morcegos pintores. Todas as manhãs os animais se divertiam a descobrir quais as zonas que tinham as folhas mais garridas e por entre as sebes, arbustos e árvores de fruto via-se todo um estendal de escadas e cestos. Por toda a parte se ouviam canções e gargalhadas.
Enquanto isso, lá por baixo, os segredos continuavam bem guardados. Era raro chegarem à surpefície do Bosque. Por entre os animais corriam as histórias e lendas que falavam de cidades misteriosas cheias de segredos e de tesouros fabulosos e de povos que se haviam recusado a dizer olá ao sol e boa noite às estrelas cadentes.
Porém, havia outros que diziam que o que existia lá em baixo era apenas um amontoado de raizes, lençois barulhentos de água e o reino das minhocas de Lareartes, responsáveis pelo equilíbrio da humidade e seiva das terras e zeladoras das sementes adormecidas.
Entre todos animais só um sabia o que realmente se passava lá em baixo. Era a Toupeira.
Só ela sabia realmente o que ficava lá em baixo após a primeira camada de terra meio escura que lembrava o cacau em pó que os animais bebiam nas festas do riacho de Alvim, ou então, passadas as últimas raizes e os últimos lençois de água… Mas não o confidenciava a ninguém.
Esse, era o seu mundo. As confidências dos nossos mundos eram para ficar só entre nós. Com os nossos botões. E, estes já eram por vezes tão difícies de abotoar.
Ela sabia que, depois de passar a última raiz do castanheiro mais velho do bosque e depois de tornear a do carvalho que lá em cima lançava a sua sombra na encruzilhada dos quatro caminhos ficava a primeira ponte de húmus e gravilha vermelha que anunciava os grandes labirintos dos metais preciosos.
Todas as tardes a Toupeira fazia esse caminho e uma vez chegada à ponte ficava parada no meio desta com um pequeno bloco de folhas verdes e uma caixa de aguarelas mágicas. A mesma que o castor tinha ajudado a encontrar. Aí, acendia um pequeno lampião de cobre e ficava longas horas a pintar os desenhos que outrora alguém gravara nas paredes da ponte. Já tinha chegado ao meio. Quando acabava de pintar o último desenho voltava para a sua casa e abraçada ao seu peluche tentava a todo o custo decifrar os estranhos cortejos de desenhos que horas antes tinha copiado com tanta atenção e silêncio.
Só se afastava da contemplação e do estudo destes quando o sono se fazia anunciar de mansinho. Aí, afastava-se da pequena mesa vermelha para se aconchegar debaixo dos cobertores tecidos pelas célebres aranhas de Brodiela, abraçava o seu peluche, companheiro de sempre e destemido aventureiro adormecendo suavemente embalada pela ternura despreocupada dos sonhos e pelas aventuras que esperam quem está a crescer.
Essa noite era a véspera dos seus anos. No dia seguinte a Toupeira fazia sete anos e tinha já convidado todos os animais do bosque para a sua festa. Assim, o primeiro sonho que chegou foi o da confusão da preparação da festa. Os bolos, os camarões fritos com batatas fritas, prato predilecto da Toupeira, os enfeites, a roupa e a gravata do peluche mas, quando a noite avançou mais um bocadinho esse sonho deu lugar a outro. De repente, a Toupeira encontrou-se de novo junto à ponte.
Nunca se tinha atrevido a atravessar a ponte. Mas, desta vez, as suas patitas insistiram em atravessá-la e sem mais recusas viu-se na entrada do labirinto dos metais preciosos.
A primeira sensação que chegou foi o medo. Depois, lembrou-se da história do Teseu e do fio da Ariane e, igual a esse príncipe antigo, ela atou a ponta de um novelo de lã escarlate que havia trazido consigo e começou a percorrer a infinidade de caminhos meio receosa, meio divertida. Uma Toupeira apesar da aparente fragilidade é sempre forte e firme. Nunca recua nas suas intenções…
O caminho descia em diagonais, para subir, desçer, voltar para a direita, esquerda, esbarrando por vezes em torrões que fechavam a continuidade e obrigavam a pequena Toupeira a voltar atrás para procurar outro caminho. Ela ao princípio pensou em desistir mas, a sua intuição e vontade de se ultrapassar a ela própria obrigavam-na a continuar.
Foi então que o labirinto acabou. Esta, atou o fio a uma pepita de ouro e olhou em redor. À sua frente estendia-se uma galeria de arcos e altas colunas de calcário com o tecto coberto de estalactites que imitiam uma luz estranha e difusa que inundava todo o lugar com uma atmosfera irreal. Ao longe ouvia-se o rugido inquieto de um rio subterrâneo e perto dela estendendo-se por toda a parede da galeria estavam pintados os estranhos desenhos que ela todas as tardes copiava para o seu bloco de folhas verdes.
A Toupeira começou a caminhar ao longo da galeria observando com atenção os desenhos que pareciam contar uma história. Primeiro, pensou que a confusão de signos e imagens eram um desafio demasiado difícil para a sua compreensão e altura mas depois de pensar um bocadinho esta, descobriu o primeiro significado. Tinha-se apercebido desde os seus desenhos solitários que havia certos signos que se repetiam constantemente variando apenas a posição e certas cores. Assim, o verde dava lugar ao laranja e depois ao roxo para, em seguida voltar ao verde inicial.
A Toupeira pensou que havia uma cor que era comum em duas delas. O azul. Mas pensou na razão do laranja e depois apercebeu-se que o amarelo também era comum no verde e no laranja e, de repente, deu um grito de felicidade que se prolongou por toda a galeria em ressonâncias fantásticas e diferentes ao das grutas à superfície, pois tinha descoberto a razão. Esses signos mostravam as diferentes alturas do dia. O verde para a manhã, o laranja para o meio dia e o roxo para o fim do dia.
Entusiasmada, satisfeita consigo própria continuou a caminhar pela galeria. Após um longo percurso esta acabava num imenso átrio de lajes negras e brancas de forma oval ao longo do qual corria em toda a sua extensão um varandim de basalto negro. A Toupeira aproximou-se do varadim e curiosa olhou para o que ficava depois dele. Abafando um grito de entusiasmo ficou pasmada pelo que os seus olhos deslumbravam… Em baixo e também ao longo das paredes que desciam num nunca acabar estava uma espiral que imitia uma luz própria e muito branca.
Entretida a admirar a espiral foi com espanto que reparou que esta, após breves instantes se movia e mudava de cor. Ao branco, sucedeu-se o azul, o vermelho, o amarelo para depois cambiar em tons de verde que lembravam as ervas dos prados e os caules finos das flores e que tremia como se um vento invisível soprasse naquele lugar trazendo-lhe à memória os dias divertidos em que ela, deitada debaixo do castanheiro ouvia as histórias das folhas para, em seguida, tomar a cor das laranjas, do sol e do ouro antigo, cor essa que lhe lembrava a caixa de aguarelas esquecida sobre a mesa vermelha, para logo tomar tons de roxo que enchiam todo o lugar com solenidade e que logo logo lhe vinha à memória as cores das amoras e dos doces que acabar de fazer juntamente com os seus amigos. Tão solenes como o sabor simples e mágico de uma boa fatia de pão com manteiga e doce…
Então, puxada por uma força invisível, a Toupeira começou a subir e em breves instantes descia velozmente pela espiral. A velocidade transformava esta num imenso arco-íris que descia, descia…
À medida que ía descendo desfilavam perante os seus olhos as suas aventuras desde que sozinha havia descoberto os estranhos desenhos da ponte. A desçer cada vez mais, a Toupeira ouvia a sua voz e por instantes viu-se rodeada pelos seus desenhos que tomavam a forma dos seus medos para logo depois desaparecerem e em seu lugar surgirem novas oportunidades com que ela sempre sonhara. Era como se fosse saltando de obstáculo em obstáculo. Primeiro ainda receosa de não ser capaz…depois, com a vontade e conhecedora de que as coisas difíceis eram as que davam mais luta e incitavam sempre para a frente, ela percebeu que os seus medos eram, afinal, coisas simples e sem razão de existir.
Foi então que chegou ao fundo. Achou-se no meio de uma sala com o chão macio que parecia algodão doce e viu que no meio desta estava uma mesa vermelha igual à que tinha na sua sala e, em cima desta, lá estavam as suas aguarelas, o copo com água, o bloco de folhas verdes e encostado a uma pilha de livros de histórias o peluche sorridente. Viu também a sua cadeira e almofada.
Esfregou os olhos, voltou a abrir e a fechar de novo estes mas a imagem não desaparecia. Antes pelo contrário era bem real e nítida. Aproximou-se da mesa e viu sobre o bloco aberto um envelope de papel pardo com o seu nome escrito a tinta sépia em letras bem desenhadas.
Pegou nele e ficou por instantes a olhá-lo sem ter coragem de o abrir. De novo, uma força grande vinda de dentro de si levou-a a abrir o envelope. Devagarinho abriu-o e desdobrou-o o papel que estava dentro dele. Era uma carta cheia de desenhos. Iguais ao que ela vira na ponte e também à momentos atrás na galeria. Ficou por instantes a tentar decifrar o significado destes quando, um sorriso iluminou a sua carita. Eram e sempre foram os seus desenhos. Eram as suas cores preferidas, o seu traço firme e também todo o entusiasmo de quem sabe ser uma verdadeira vencedora.
Afinal, o que ela copiara com tanto afinco e dedicação durante tantas tardes na ponte era apenas as etapas da sua evolução. O que ela descobrira na galeria eram os reflexos de quem começa a conhecer-se ao poucos… como se deixasse de um momento para o outro de gatinhar e começar andar pelas suas próprias pernas e soubesse que haveria de acontecer muitas quedas e outras tantas cambalhotas até se ousar pela primeira corrida ao vento. Era, tudo isso e também a dedicação de querer ser e vencer. De querer ter uma palavra com timbre firme para que todo o mundo visse e ouvisse que ela também tinha o direito a ter uma opinião, uma vontade, uma escada para subir, para se sentar e também para descer sem que alguém ousasse criticar ou dizer por aqui ou por ali.
Sentou-se na cadeira e olhou de novo em volta. A sala mudava. Tornava-se circular,depois num quadrado que se alongava até tomar a forma de um rectângulo. Sorridente, a Toupeira pensou num segredo… daqueles que se costumam desejar quando chega o momento de apagar o bolo de anos.
Mas, esses desejos guardam-se como os segredos que existem para lá das raizes e dos últimos lençois de água. E só ela sabia o que existia aqui em baixo… Era a espiral onde o Arco-Íris se encontra, começa, esconde e reinventa… Processo tão igual ao crescimento da Toupeira!
Aqui em baixo é, também, o lugar onde estão guardados os seus sonhos e a sua força. Lugar onde ela pode vir quando quiser para perceber as coisas novas e alinhar com sucesso o que já percebeu. É o seu lugar de faz de conta. E fazer de conta é tão importante quando se está a crescer!
PARABENS TOUPEIRINHA
BONS E GRANDES SONHOS ANIMAIS DO BOSQUE DO CRESCENTE AZUL:)
PANTERA NEGRA
O PINGUIM E O CASO DA BOLA
Imaginar é abrir os braços e num só instante abraçar todo o Universo.
Todas as tarde, após as aulas no Colégio do Bosque do Crescente Azul, Pini, o Pinguim dos pólos dirigia-se feliz para os campos de jogos que ficavam junto das moitas das Amoras Bravas. Em todo o bosque era conhecida a sua perícia de bom jogador e em pouco tempo o nome do Pini era mencionado em todas as revistas desportivas.
A final do Campeonato da bolota de ouro aproximava-se. Devido a esse acontecimento de tanta importância, o Pini treinava com muita dedicação todas as tardes. Porém e como era costume no Colégio este não descurava dos seus estudos. Aliás era para ele muito importante ser num só tempo um bom estudante e bom jogador.
Ora, nesse fim de tarde soalheiro, Pini, o Pinguim dos pólos ao chegar ao campo notou em redor daquele um certo alvoroço e aqui e ali ouvia-se um berro furioso do treinador que, com sotaque das estepes do norte, inquiria e acusava todos a torto e a direito pelo desaparecimento da bola dos quatro segmentos.
Muito a custo o pequeno Pinguim lá conseguiu ultrapassar a multidão de animais curiosos que, meio divertidos, meio espantados seguiam com atenção os berros do treinador.
A bola tinha desaparecido. Ao vê-lo, o treinador dirigiu-se para ele e depois de um longo suspiro de desalento disse-lhe numa voz tristemente desapontada:- Este ano o campeonato da Bolota de Ouro não se irá realizar. Já mandei o Falcão entregar as mensagens por todos os cantos do Bosque que anunciam o seu cancelamento.
Depois, virou-lhe as costas e sumiu-se por entre o emaranhado de tacos de hóquei e sapatilhas que jaziam esquecidas por entre os estandartes e instrumentos musicais da claque da equipa.
Triste, o pequeno Pinguim encolheu os ombros e preparou-se para regressar a casa. Escolhendo um dos caminhos mais longos, este, enverdou pela Alameda das Sebes Cantadeiras, contornou a Praça do Bizonte Branco, evitando entrar na Gelataria do Faz de Conta, lugar onde sabia estarem muitos dos seus amiguinhos a lambuzarem-se de gelados e chocolate quente, resolvendo antes subir a enorme Escadaria das Estrelas Cadentes para assim descançar de todo o seu desapontamento num dos bancos de granito rosa do Jardim das Urzes.
Era a hora em que os pirilampos invisíveis acendiam por todo o bosque os candeeiros e, um a um, os animais regressavam a suas casas. No céu, a lua cheia começava a inundar todo o bosque. Sozinho no meio do silêncio do Jardim, o Pinguim pensava numa maneira de encontrar a famosa bola.
Olhou o céu e começou tristemente a contar as estrelas… Primeiro foi a vez das estrelas da Constelação do Anel da Corça, depois vieram as da Constelação do Galo Azul e… quando principiava a contar as da Constelação do Búzio Partido adormeceu embrulhado no seu longo cachecol às riscas amarelas e vermelhas, as cores do seu grupo lá no Colégio.
Ainda não tinha passado uma hora quando julgou ouvir a voz da Mosca. Julgando sonhar aninhou-se mais no cachecol mas, a mesma voz igual ao vento de uma manhã primaveril sacudiu-o exclamando:- Que fazes tu aqui sozinho?
O Pinguim já bem desperto viu à sua frente a Mosca sonhadora que apertava contra o peito um molho de folhas de papel manteiga e trazia ainda os cantos da boca cheios de chocolate. Esta, sentou-se ao lado dele e depois de comer um chocolate, voltou-se para ele dizendo:- Ainda tenho aqui um em forma de boboleta e coberto de mel… Queres?
O pinguim gesticulou um não com a cabeça, baixando-a em seguida com grande tristeza. A Mosca, apercebendo-se das razões de tal estado sugeriu com voz animada:- Porque não tentamos os dois procurar a bola? Esta não deve estar muito longe…
O outro olhou-o e com um sorriso no bico respondeu levantando-se num pulo: Vamos! Vamos começar já!
Porém, a Mosca, desembrulhava o último chocolate e pousando as folhas na erva respondeu: Primeiro temos de fechar os olhos e pensar muito bem em todas as possibilidades que temos para a encontrar a bola. Só então poderemos começar a investigação.
Meio irritado, meio confuso e já pronto para resmungar, o Pinguim conteve-se sentando-se junto do amigo à espera das decisões que saíriam de tais pensamentos.
A Mosca limpou as mãos numa toalhita de menta e com um sorriso de chocolate disse pausadamente:- Isto é trabalho para a Super Mosca e…
Olhou o Pinguim à espera da conclusão da frase. Apercebendo-se disso o Pinguim apressou-se a concluir:- E para o Doutor Pini dos Pólos!
Uma enorme gargalhada em uníssono abalou o silêncio do Jardim. Assim, depois de fecharem os olhos e de pensarem um pouco, resolveram iniciar e concluir com sucesso o caso da bola desaparecida.
Pouco depois, a Mosca já havia envergado o fato verde e amarelo da Super Mosca e o Pinguim já estava munido de uma enorme lupa de prata e cristal. Ambos prontos para darem início à demanda da bola.
Mas, logo, logo, começaram as confusões. A Super Mosca queria recolher impressões digitais no recinto dos jogos e elaborar uma lista de suspeitos, enquanto o Doutor Pini dos Pólos preferia interrogar meia dúzia de animais que ele vira nessa tarde junto ao campo.
Foi tal a algazarra de impressões e interrogações que acabaram ambos a rebolar pela enorme escadaria e a estatelarem-se com estrondo no meio do Lago dos Lótus que ficava na Praça das Murtas. A praça, cheia de esplanadas e escorregas estava áquela hora apinhada por uma multidão de animais que gozavam um bom começo de fim de semana.
Completamente encharcados, a dupla viu-se rodeada de pequenas cabecitas e de largos sorrisos. Envergonhados, estes levantaram-se e puseram-se de novo a caminho.
Já bem afinados, ambos resolveram começar pelo recinto dos jogos. O local estava vazio. As sombras dos castanheiros escondiam as bancadas de mármore e o único barulho que se ouvia era o murmurar das folhas e o rastejar de algum folheto esquecido no chão que uma vez mais recordava ao Pinguim o cancelamento do tão desejado campeonato.
A Super Mosca ligou a pedra de quartzo, colocou os phones na cabeça e começou à procura de impressões por todo o lado. Noutro extremo o Doutor Pini revolvia um a um todos os pares de sapatilhas e camisolões que continuavam espalhados pelo vestuário do Campo.
Ao fim de muitas horas, as buscas não deram em nada. Desanimados, preocupados pela pouca sorte, resolveram procurar noutro lugar. E, quando a Super Mosca ía sugerir uma nova reunião o doutor Pini, com uma voz irritada disse:- Ai não… nem penses em começar com teorias… Se vais começar a palrar como um tordo dos planaltos de Murano eu…
- Tu… – Continuou a Super Mosca divertida.
- Eu… eu… Vou para casa dormir e não me preocupo mais com a bola, campeonato…Com…com Nada! – Exclamou o Doutor Pini entre o zangado e o cansado.
Adivinhando a desilusão do amigo, a Super Mosca aproximou-se dele. Colocando-lhe o braço nas costas arrastou-o para fora do recinto dos jogos dizendo ao mesmo tempo: – Não te preocupes…. Havemos de encontrar a bola. Palavra de Super…
- Mosca!!!…- finalizou o outro.
Um sorriso de ambos apaziguou de novo o ambiente. Juntos decidiram então explorar as ruas do Bosque Velho. Estas, eram umas ruas estreitas e sinuosas que acompanhavam em espiral as antigas Muralhas de Marfim que outrora defendiam o bosque Azul. Era aí que se concentravam os grandes antiquários do Bosque e também era nelas que, por vezes, os bandos de hienas íam vender os frutos do roubo. Estas, costumavam fazer as suas rapinas nos campos a leste do Bosque e por todas as cidades costeiras que orleavam a costa do Mar dos Turbilhões Cinzentos.
As hienas eram piratas de fama duvidosa. Muitas das vezes acabavam a rir delas próprias, tais não eram as suas confusões e vidas sem sentido. Julgando-se marinheiras experientes, estas, quase sempre naufragavam nas miragens que criavam de si mesmas mas, como é devido a pessoas que julgam ser superiores tinham sempre uma razão para tudo e…também para todos.
Depois de entrarem em muitas lojas e depois de terem sido corridos de muitas também, isto porque a Super Mosca já tinha partido três taças de cristal lunar do século VII provenientes da antiga cidade de Argathes, outrora a opulenta capital do Império dos Sapos listados e hoje um dos ex-libris do bosque, derrubado duas estátuas de malaquite e bronze que representavam antigos deuses da cultura Hime, cultura ainda florescente situada para lá dos sopés dos Montes dos Urros e umas quantas lanças de bronze de uma tribo desconhecida e mítica, objectos estes muito valiosos e de grande valor, estes dois acabaram por entrar na loja do Coelho de Malte, loja esta situada numa praceta clara, com um pequeno jardim e uma fonte que refrescava os habitantes e turistas nas noites mais quentes do bosque.
Antes de entrarem na loja o Doutor Pini virou-se para a Super Mosca e disse:- Se desta vez partires alguma coisa eu dou-te uma bicada na asa.
A Super Mosca olhou para ele com um ar muito compenetrado e após um longo momento de reflexão respondeu calmamente:- Nunca sou desastrado… Posso ser distraído…Mas desastrado não…
O Pinguim levou as asas à cabeça e murmurou: – Não vale a pena…Deixa Herói de meia noz… Deixa…
Ao entrarem na loja apinhada de quadros e loiças antigas, o Pinguim teve um arrepio de medo pois, nesse mesmo instante pareceu-lhe ver a Super Mosca a cair por cima de uma mesa de madeira pintada onde estava exposto um serviço de porcelana da cidade de Luana. Sentiu e ouviu mesmo o barulho da loiça partida e o enorme estrondo da mesa e no meio de cacos onde outrora nadavam peixes vermenhos por entre ramagens de corais, estava a Super Mosca meio atordoada e que a todo o custo dizia com voz dorida:- Tenho tudo controlado… Não se passa nada…
O Pinguim esfregou os olhos e quando os abriu reparou que toda aquela visão era realidade. Lá estava a Super Mosca no meio dos cacos, com as asas revolvidas e uma enorme terrina a balançar perigosamente na sua cabeça. Ao ouvir o estrondo, uma pequena cortina de estopa cinzelada afastou-se aparecendo uma coelha enorme com um ar de poucos amigos. Numa das suas patas trazia uma vassoura tão grande como ela e, no instante a seguir, ambos eram corridos à vassourada pela porta fora.
Junto à fonte que se situava no meio da praceta, o Pinguim, caminhando de um lado para o outro exclamava irritado: – A palavra ATENÇÃO não te diz nada?
A Super Mosca esfregando a cabeça e alisando as asas respondeu: – Eu tenho atenção… Não tive culpa que a mesa me fizesse uma rasteira.
-Uma rasteira!!! A mesa não faz rasteiras… Tu é que foste contra a mesa!
A Super Mosca já bem composto olhou o Pinguim com espanto respondendo: – Eu não tenho culpa… A culpa vem sempre ter comigo… Que sorte a minha.
O Pinguim não lhe respondeu e encaminhou-se para a Avenida dos Pavões logo seguido de perto pela Super Mosca que ainda desafiava uma culpa escondida em algum lugar. Já na Avenida, avenida esta que corria perpendicularmente ao longo de todo o bosque e onde se situavam as lojas mais elegantes e caras do mesmo, os dois amigos resolveram prosseguir com as suas aventuras.
Quando ambos observavam uma montra com as roupas da última colecção o Doutor Pini viu reflectida no vidro daquela a bola dos quatro segmentos. Primeiro julgou estar a sonhar. Depois, julgou tratar-se de um acessório de decoração da montra e que se assemelhava à bola… mas era mesmo a bola. Redonda, dourada e com o crescente bem gravado no meio.
Voltou-se para a Super Mosca para lhe perguntar se este também via o que ele via quando, tal não foi o seu espanto, ao notar que a bola estava e sempre esteve pendurada ao pescoço do seu amigo. As correias de couro que serviam para transportar a bola de campo em campo era as mesmas. E mesmo o saco branco com o brasão do crescente também o tinha a tiracolo a Super Mosca.
Numa voz que tentava ser calma o Pinguim perguntou à Super Mosca:- Andaste sempre com isso durante a nossa demanda?
A Super Mosca seguiu com o olhar a asa do amigo que lhe apontava o saco e a bola e com um sorriso respondeu: – Sim… Fui encarregue de guardar a bola na sala dos troféus mas, como esta esteve fechada hoje tive de a trazer comigo…- Depois, em tom entusiasmado disse: – Sabes que o Campeonato da Bolota de Ouro é daqui a dois dias? Estás preparado para ser o herói do jogo?
O pinguim ficou por instantes calado. Depois, com um sorriso e uma voz trocista disse: – Sim… Estou! Sabes meu herói de noz e meia… Acho que o nosso caso está encerrado… E com sucesso!
- Está?- Perguntou a Super Mosca intrigado.
- Está… ou seja…sempre esteve. Pois não houve caso…
- Não houve?…- Perguntou a Super Mosca. – Não dei por isso…
- Eu sei… Mosca… Eu sei…- Concluiu o Pinguim.
BONS E GRANDES SONHOS ANIMAIS DO BOSQUE DO CRESCENTE AZUL
Pantera Negra
O Falcão Procura um Sonho
Nos sonhos reinventamos os dias claros
Era uma vez um Falcão que procurava um sonho.
Todas as tardes, mal o sol se punha, o Falcão ansiava pela chegada da noite para aí procurar os seus sonhos perdidos. Mas estes não chegavam… nem mesmo nas noites cheias de estrelas ou quando o quarto de crescente começava de mansinho a ensinar à Ratinho as clareiras secretas do bosque ou, quando a lua no seu máximo explendor rasgava o céu nocturno com uma luz tão viva e brilhante que convidava todos os animais do bosque para a diversão ao som do Dj Saguim.
Lá do alto da sua casa, o Falcão queria pertencer às clareiras de luar que se estendiam aos pés do bosque. Queria também ele abrir as suas asas e num voo bem planado ao sabor do vento amigo pousar junto aos outros animais para também dançar e brincar… Era talvez esse o seu sonho!
Todas as manhãs o Falcão ouvia os outros animais a contarem os seus sonhos. Com atenção seguia cada uma das palavras, acompanhava cada um dos gestos e acabava sempre a rir com os outros, tais não eram as traquinices e aventuras em que todas as noites os sonhos embalavam os restantes animais contadores de fábulas e de viagens… Ou eram as aventuras da Super Mosca sempre a lutar contra gigantes e seres intergalácticos, ou as fantasias cor de Outono da Raposa onde, por entre fadas e duendes ela era a Rainha das Noites encharcadas de luar… ou os jogos espaciais do Pinguim e as suas vitórias no Hóquei em gelo ou, ainda, os desfiles de moda e as edições das revistas especializadas em viagens e bem cosmopolitas da Marmota para, acabarem nas travessuras empolgantes do Texugo e nos concertos com milhões de fãs do Saguim…!
Não sonhar estava a tornar-se num grande problema para ele. Tão grande que, por vezes, parecia uma bola de neve gigante ou tempestades fortes para as quais ele não tinha ou não conseguia encontrar forças para ultrapassar e vençer.
Lembrava-se muito vagamente de uma vez ter sonhado mas o Génio dos Sonhos lembrou-o de que ele, nesse mesmo dia, havia partido a jarra de cristal da Princesa das flores de Malva e como castigo nunca mais lhe permitiu sonhar.
A princesa tinha-o perdoado. Aliás, ela mesmo repreendeu o Génio por um castigo tão absurdo mas, este era conhecido pela sua terrível surdez e assim, desde essa noite nunca mais tinha sonhado.
Vagamente, o Falcão procurou o Génio por entre todas as regiões conhecidas em redor do bosque.
Primeiro, voltou-se para Sul e num voo rápido chegou à cidade das Torres de Bronze, onde morava o castor da cauda branca.
O castor era célebre pelos seus dons adivinhatórios. Foi o castor que ajudou a encontrar o Elmo de Cristal que a Andorinha tinha perdido nos jardins de Thachenberg. Foi também ele que ajudou a Cotovia a entrar para o Conselho do Lampião de Rubis, conselho esse responsável por todas as festas e guloseimas do Bosque do Crescente Azul.
Aliás, muitos animais murmuravam que a apetitosa e muito apreciada receita de avelãs com recheio de chocolate eram uma das muitas adivinhas e magias que o castor aprendera quando aluno no respeitado Colégio das Montanhas de Alvim. Fora ainda o mesmo castor que tinha encontrado as aguarelas mágicas da Toupeira e os lápis encantados do Tigre.
Ao chegar junto do castor, o Falcão não teve tempo de formular a pergunta, nem o porquê da sua visita. O castor olhou-o com desdém e disse numa voz batida:- Achas que por acaso encontras uma resposta para um problema tão grave ?
O Falcão, desanimado, voltou costas ao castor e partiu em direcção ao Norte, para a cidade de Kahifas, pátria das Doninhas ponto de Açucar Mascavado.
Estas, entre outras coisas, tinham a fama de serem bem espertas e muito doutas a apontar caminhos e directrizes… Eram tão complicadas que, por vezes, elas próprias se afundavam em papéis e mil-folhas com cobertura de geleia de orvalho.
Antes de pousar, o Falcão procurou longamente uma das muitas casas que tivesse poucas pessoas nas filas. Lá encontrou uma mas, quando chegou a sua vez, a doninha fechou o guiche dizendo numa voz de enfado:- Encerrado para o almoço. Reabre quando eu decorar quanto é 2×2.
Perante tal afirmação, o Falcão ficou a pensar que a doninha era muito parva e pouco esperta. Todos sabiam que 2×2 era igual a 4 e que a tabuada do Livro Mágico do Unicórnio não era nada difícil nem do outro mundo.
Uma vez mais, desanimado, tomou o caminho que o levava a Este. O caminho contornava as falésias do Mar das Turquesas, subia em direcção ao Castelo De Allensberg e depois, passada a grande ponte das cataratas de Âmbar, chegava por fim ao reino das Preguiças de Birkbeck.
Quando aí chegou, o Falcão ficou supreendido pela quantidade de árvores gigantescas que povoavam as ruas da cidade. Esta, a cidade, era uma enorme floresta onde o sol penetrava a muito custo. Aqui e ali, abria-se um olhito sonolento para logo de seguida se fechar.
Voando por entre as árvores, o Falcão lá encontrou a casa das perguntas que esperam e rodam e por momentos ficou à espera de ver ou ouvir alguma coisa.
Depois de uma longa e exesperante espera, o Falcão lá encontrou um gongue de bronze. Fê-lo soar duas vezes e o som de metal antigo propagou-se por toda a cidade.
Só ao fim de duas longas horas apareceu uma Preguiça a cambalear de sono e com um ar de poucos amigos.
Esta, olhou-o da ponta do bico à ponta das asas e após um longo bocejo perguntou: Trouxeste alguma almofada de penas de perdiz e algodão das Ilhas de Duramding-Dingduram?
Apercebendo-se da resposta, o Falcão levantou voo e tomou a direcção do Oeste.
Primeiro cruzou as pradarias de Alcabkahir, depois, em linha diagonal passou por cima das cidades de Elmerol e Huggates e já caía a noite quando cruzou as Portas dos Cavalos do Ferro Ardente que marcavam o início dos jardins e pavilhões de jade do Imperador Urso Polar reconhecido pela sua inteligência e tolerância.
Assim, no meio do Lago das perguntas geladas situava-se a sala do trono do Imperador. Sala imensa, em forma de trapézios invertidos onde tudo era feito de gelo negro e platina lunar.
Ao vê-lo, o Imperador sorriu e com um gesto amigo convidou-o a aproximar-se dele.
Muito a custo o Falcão lá se encaminhou para ele e quando chegou à beira do trono, este, com uma voz suave disse: – O que procuras esteve, está e estará sempre dentro de ti.
Uma vez mais o Falcão pensou que o Imperador estava a fazer pouco da sua tristeza. Baixou a cabeça e as lágrimas começaram a rolar nos seus olhitos rasgados. Porém, quando caíam no chão da sala tomavam a forma de cordões de pérolas que cresciam e desafiavam a gravidade do lugar. Em pouco tempo haviam já construído uma enorme cúpula que subia e se alongava até abarcar todo o tecto da sala. Depois, o Imperador bateu duas palmas e do centro da cúpula desceu um cordão de seda e ouro. Nesse vinha pendurado um pedacito de papel escarlate.
O Imperador pegou nele deu-o ao Falcão dizendo:- Os teus problemas e desaventuras cabem todos neste pequeno papel do tamanho de uma gota de orvalho.
O Falcão pegou no papel e reparou que este tomava a forma de um minúsculo espelho onde se reflectiam os tempos perdidos quer na tristeza, quer na incerteza de não poder sonhar.
Afinal, o espelho mostrava-lhe que os sonhos tinham estado sempre lá. Junto e dentro dele. Envolvidos apenas nos nevoeiros das birras e escondidos por entre os muros que aquele havia construido.
Viu os seus amigos que o convidavam para brincar e as suas recusas, viu as festas a que não foi e viu também, as noites confusas onde o sono se recusava a comparecer devido ao seu mau humor.
Ainda com uma voz suave o Imperador acrescentou com um sorriso:- “Por vezes, os nossos problemas parecem maiores do que são na realidade.”
Quando pensares que estás triste basta murmurares para ti mesmo a seguinte fórmula: É urgente inventar um arco-íris… É necessário prolongar em mim o Falcão menino que, embalado nos meus pensamentos, me ajuda a subir e a chegar ao ponto mais alto do meu Eu!
É preciso acordar e todos os dias olhar o mundo como se fosse a primeira vez que o olhamos e conhecemos… É necessário agir sempre como eu próprio e não como os outros. E, é sempre bom em qualquer altura partilhar os momentos com os amigos!
Agradecido, o Falcão saíu a voar o mais depressa possível do pavilhão para chegar a tempo da festa animada pelo Dj Saguim.
Assim, ao aproximar-se do bosque e ao ouvir a algazarra dos restantes animais este aterrou satisfeito no meio deles. Todos os animais o envolveram em grandes abraços e, todos juntos, prepararam-se para dança a música “The Lion sleeps tonight…”
BONS E GRANDES SONHOS ANIMAIS DO BOSQUE DO CRESCENTE AZUL.
Pantera Negra
O ANO DOIS NA ESCOLA DO BOSQUE DO CRESCENTE AZUL
“Só somos originais, porque não sabemos nada.”
Hölderlin
Um novo ano começa na escolinha do Bosque do Crescente Azul.
O ano II onde, os pequenos animais vão estar de novo entretidos na tarefa de crescer.
Um ano, que começou de forma mágica porque, só pela magia se pode compreender a importância e o significado de ser, estar e evoluir de forma crescente, igual à maneira como os sonhos surgem e nos guiam durante a noite ou, então, acordados e contemplativos durante o dia à beira de um lago, à mesa de um café, com um livro entreaberto ou, simplesmente entretidos com as escadas e metas do futuro.
A passagem da plataforma 7/3/4, a viagem no Expresso do Bosque do Crescente Azul, a Barca do Dragão, as aulas dadas pelos pais que, por instantes interpretaram o papel de professores, os jogos e por fim, o lanche e a dança, marcaram um princípio em forma de crescendo, igual a uma sinfonia, igual, ao emblema escolhido para dignificar a escolinha, emblema esse que traduz de forma simples o próprio acto de crescimento.
Porém, este ano II trouxe novos animais ao bosque… a Abelha, o Cavalo, o Elefante e o Falcão juntaram-se aos demais animais: Ao Pinguim futebolista, à Raposa bailarina, à Toupeira firme, ao Saguim DJ, à Mosca sonhadora, ao Ratinho das mil e uma gargalhadas, à Tartaruga adormecida, ao Texugo rebelde, à Cotovia senhorinha, à Suricata carinhosa, à Marmota contestatário, à Águia pacífica, ao Leão tímido, à Andorinha equilibrada, ao Tigre empenhado e à Girafa espantada!
A Pantera Negra, depois de uma primeira semana onde se afinaram de novo os instrumentos e se prepararam os animais para o concerto da aprendizagem, percebeu que o aumento da turma mágica só por si dignificava os planos de um novo Ano Mágico pleno de conteúdos, magia e resultados lindos.
Esses novos animais, depressa fizeram parte da turma como se fossem uma constante desde o primeiro ano. A certeza desta afirmação só pode dignificar o ambiente e a partilha que existe em uníssono entre a Pantera e os seus pequeninos animais.
Assim, temos um Elefante envergonhado mas simpático, uma Abelha de olhar vivo e curiosa, um Cavalo trabalhador e metódico e um Falcão que procura no mundo um lugar de afirmação e um canto protegido onde pode sonhar e ser ele próprio.
Como Educador, eu, Pantera Negra, tenho o privilégio e também a responsabilidade de transmitir e “convidar os outros para o significado”, expressão do pensador itenerante George Steiner, que eu sublinho e que resume a importância da palavra e do ser professor.
Ajudar cada um dos meus pequeninos a alcançar o topo do seu melhor EU!
Por isso, é muito importante todo o apoio que desde sempre me têm dado os pais dos meus meninos e, também, a cooperação e amizade da professora Carla Gomes, responsável pela biblioteca da escolinha.
A todos quero desde já transmitir a minha sincera gratidão e juntos, estamos a fazer brotar uma nova consciência e também novas atitudes dentro e fora da escola.
O futuro só acontece se for feito em conjunto segundo o lema dos mosqueteiros: UM POR TODOS E TODOS POR UM!
A ser assim, que o Ano II se multiplique na magia e no sonho sempre iluminado pelo nosso CRESCENTE AZUL.
Da Pantera Negra… Escritas do Bosque do Crescente Azul
A Pantera Negra bocejou lá no alto da Montanha Azul… Em redor, as abelhas zumbiam serpenteando por entre as raras flores que cresciam nas fendas do granito cinzento e antigo.
O vento, trouxe até si as conversas das árvores que ficavam em baixo, múrmurios do Bosque do Crescente Azul onde, por entre os troncos antigos, as clareiras de veludo verde, os riachos e lagos de água cristalina habitavam os animais das cartas mágicas que, entretidos a crescer, gozavam agora umas merecidas férias.
O bosque estava agora vazio. Os pequenotes, de malas feitas com sonhos, tintas e folhas de desenho haviam partido para férias, deixando para trás as árvores, os pássaros e as memórias de um ano mágico.
Era assim no Verão! As férias grandes traziam sempre consigo um cheirinho a saudade. Porém, também antecipavam com entusiasmo um novo começo quando, por entre as folhas caídas e o adeus das andorinhas violetas, o Bosque do Crescente Azul voltava a ouvir e ver de novo as gargalhadas e tropelias dos pequenos animais que, com alegria anunciavam a chegada de um novo ano!
A pantera sentia falta daqueles sorrisos e dos olhares vivos dos seus pequenos aprendizes… Recordava assim, lá no alto da montanha, os imensos momentos de crescimento que juntos tiveram ao longo do primeiro ano na escolinha do Crescente Azul:… as muitas perguntas que por vezes se atropelavam umas nas outras, semelhantes a uma avalanche de curiosidade e bom humor, a atrapalhação tão própria da idade que, por vezes, causava algumas quedas dos troncos da escola, as leituras… As primeiras timidas e quase em segredo, como se fossem monólogos secretos, até à libertação do “Eu já sei ler…”, da ordem e desordem das primeiras letras aos textos cheios de sonhos que prometiam sempre mundos grandes e plenos de liberdade, dos números e das operações, da descoberta do Universo, aos pulos e cambalhotas de planeta em planeta, das danças e música e, por fim, as enormes brincadeiras que, desde os simples jogos de recreio às grandes corridas de carros provocavam sempre muitas, mas mesmo muitas gargalhadas!
Assim, com o olhar fixo no céu azul, onde de quando em quando nuvens brancas passavam na direcção ao Mar dos Castores das Esmeraldas Verdes, a Pantera Negra, com sorrisos, recordou um a um os seus pequenos aprendizes, como se esses fossem palavras de um poema feliz.
Afinal, os sonhos também apanham boleia das nuvens!
I
Dos Unicórnios divagadores,
Há um Pinguim guardador de sonhos! Com pés enfeitados de asas que marcam golos de bicicleta e fazem estalar os estádios com aplausos que ressoam pelo universo com ecos de ouro.
Tem a cabeça enfeitada com a coroa de louros dos antigos heróis da Grécia Antiga e, na vertigem das palavras, a si próprio se descobre com o ritmo brilhante das estrelas cadentes.
E também há uma Raposa herdeira das fadas. Sílaba a sílaba, inventa bosques vermelhos e amarelos, clareiras de segredos outonais onde, na imaginação do gesto e igual a ela própria, balança na harmonia da música das esferas de cristal, prolongando a sua alegria nas espirais dos lagos das águas claras.
Gotas de música descrevem na erva verde bailados com cisnes encantados onde, todas as tardes, ela cumpre a vitória da infância antiga, entreabrindo a glória a um mundo ávido de futuro e paz.
II
Dos Dragões… Senhores dos múrmurios alados,
No silêncio inteligente, resguardada nos seus beirais de cristal, a Andorinha desafia a vertigem da palavra e sonha com o espaço grande que promete todo o azul do céu.
Tudo nela é calmo. A certeza tem os tons da madrugada e só o vôo antecipa a chegada da Primavera.
O Tigre solar regressa sempre às sombras esculpidas que a selva encerra. Só ele conhece os lugares onde os piratas antigos esconderam os seus tesouros. Só ele sabe interpretar a escrita que o mar escreve nas praias imensas.
Atento e curioso, descobre todos os dias os jardins perdidos onde, por entre os muros arruinados, o sol joga às escondidas com a lua e com as estrelas.
O Leão nunca se perde nos riscos e nos labirintos de tintas com que organiza o seu reino. Todos os dias acompanha o ritmo das horas dormentes desenhando em folhas brancas um mundo claro.
Reencontrar a harmonia do traço é abraçar a certeza. Algures, por entre as montanhas que encerram a savana, existe uma torre de marfim à espera de ser conquistada e tomada pela vertigem da palavra e pelo silêncio sábio dos dias felizes.
Numa história antiga havia um Girafa que comia estrelas!
A nossa Girafa, ao contrário, invoca imagens que traduz à luz dos quadrantes e anseia pelo mundo com firmeza e atitude.
Devagar, espantada com o verde da copa das árvores, canta na noite quente, velhas canções que falam de heróis e de batalhas antigas.
III
Dos Fénix… Desordens equilibradas em cordões de prata e luar,
O nome de todas as coisas é puro e simples como a Mosca que se perde em mil e um universos por entre sorrisos e palavras aladas.
Transparente como os mares que constantemente se reinventam, empenhado na memória e nas tropelias dos sonhos, todos os dias parte e regressa das viagens escritas onde, ele próprio, é herói numa ordem ou desordem, ambas inventadas como estratégias, como se fosse um general ou conquistador no tabuleiro dos impérios e batalhas antigos.
A Ratinho é uma enamorada do sol, da lua e das estrelas. Abraça as nuvens e corre em liberdade nas espirais dos ventos.
Os olhos vivos são janelas escancaradas para jardins secretos com canteiros de gargalhadas e manhãs orvalhadas de bom humor.
Não existem coordenadas no seu mundo. Apenas sonhos, muitos, e canções que espalha por todos os cantos onde, todos os dias, faz a luz acontecer.
A hera e o roseiral desdobram nas longas tardes ensolaradas o refúgio calmo onde a Toupeira imagina a invenção dos dias claros.
É na sombra secreta da ramagem das flores que ela desafia o mundo e faz estremecer com espanto o regresso das aves ao Sul.
A firmeza é nela aliada da inteligência e os segredos das coisas têm no seu mundo nomes encantados de Elfos e de fadas.
As portas de algas verdes e o chão de areia quente guardam os segredos da Tartaruga. Há um silêncio que por vezes recorda a grande barreira de coral dos mares do Sul.
Pudesse ela libertar-se e, em todos os lugares, haveria sempre um momento onde ela, assim ousada, escreveria histórias de contar e encantar.
IV
Dos Elfos… Cancioneiros e poetas dos castelos de Bronze,
É possível para a Águia construir um mundo novo e uma ordem de paz e justiça. É possível inventar os dias todos na certeza da amizade e no sorriso que abraça a união e a verdade certa dos mosqueteiros.
Acompanha e emerge no sorriso. O tesouro que partilha com o universo inteiro traduz a sua consciência serena na orla quente do mar onde, todos os dias, as gaivotas gritam os acontecimentos de uma viagem à volta do mundo em 80 dias.
A paisagem é feita do encontro entre o antigo e o novo pela ordem ritmada das palavras da Marmota.
A invenção traduz o desafio e promete aberturas direccionadas a todos os cantos do mundo. Cumpre a vontade com desejo de liras e cítaras e promove a liderança no cruzamento dos hemisférios onde, com ajuda do vento defende causas e desfralda bandeiras.
V
Dos Grifos… Poemas de gargalhadas em Dó Maior,
À deriva na torrente feliz dos justos, o Saguim invoca a liberdade do absoluto e como Ulisses, navega temerário e inventivo pelo oceano de gargalhadas azuis, atracando ou partindo em rotas musicais que tendem sempre a sonhar e reinventar a Ítaca desejada.
Há sempre um canto que transporta a memória da primeira manhã e fins de tarde quentes onde o sol, enorme e laranja parece querer incendiar o mar e o céu. Num só instante acende todas as estrelas que existem no céu!
VI
Dos Duendes… A Divina desordem das coisas,
Serena na sua claridade campreste, a Cotovia embala com canções antigas as constelações adormecidas.
Antecipa a adolescência numa atitude inteligente e no entrelaçar das noites anseia pela verdade que sabe existir no interior dos frutos.
Herdeira da infância antiga, a Suricata fez piruetas mágicas e baniu a incerteza do abismo transformando a corda bamba de seda e ouro numa estrada serpenteada de Salgueiros frondosos e flores.
Haverá sempre no seu caminho a frescura de um sorriso e a vontade de cantar é nela a gramática da liberdade e das emoções.
O desencontro ao poente fez acontecer o encontro. A claridade branca do sol desenha no muro um perfil à maneira do quatrocentto italiano.
Telúrico, impetuoso como as tempestades em mar aberto, o Texugo revolve o mundo reinventando a ordem em fantasias de mimos e caprichos que embatem no mundo igual a vagas de gargalhadas e travessuras.
Inteligente, audaz, imagina reinos antigos onde ele é num só tempo, cavaleiro e dragão!
BOAS E GRANDES FÉRIAS!
CHEIAS DE SONHOS, BRINCADEIRAS, AVENTURAS, ESCRITAS, DESENHOS E LEITURAS!☺
POSTAIS DO BOSQUE DO CRESCENTE AZUL
“NÓS POR CÁ… SEMPRE BEM”

















…..Escritas do BOSQUE DO CRESCENTE AZUL …parabéns professor António, este texto tem o dom de descrever o “ser” de cada um dos meninos e penso que está correcto, sei ser raro um professor dar-se a esse esforço, e ser tão certeiro, obrigado pelo empenho! Por aqui vá contando com o nosso apoio!!!!Sabemos que este ano lectivo vai precisar de muito!
Há cerca de vinte anos atrás tive um sonho: abraçar uma profissão que me permitisse fazer do mundo um lugar melhor. Mais humano. Mais justo. Mais alegre.
Durante todo este tempo apliquei o meu esforço, o meu saber, a minha convicção. Evitando falsas modéstias, acredito que fui contribuindo para que os “meus meninos” crescessem mais e melhor. Colaborei sempre com as famílias e trabalhei com muitos colegas fantásticos. A todos agradeço o meu próprio crescimento interior.
Mas, na Escolinha do Crescente Azul os acontecimentos sucedem-se noutra dimensão:
Os alunos não estão na escola. Vivem a escola.
Os pais não colaboram. Empenham-se.
Os professores não gostam da profissão. Respiram-na.
Educar não é um trabalho. É UMA PAIXÃO.
A MAGIA INUNDOU AS NOSSAS VIDAS E, JUNTOS, CHEGAREMOS SEGURAMENTE MUITO LONGE!!
Se eu fosse fazer um discurso solene em seu louvor,expresando a minha gratidão e o meu profundo afecto,ficaria envergonhada e tentaria fugir.Por isso, não o faço. Aceita-o como se eu o tivesse feito.
Obrigada por cuidar do meu Texugo,é muito bom ele ter um mentor como o professor António.
Que linda história!
Um mix perfeito de dons e de seres…;) P) .)
Fez-me chorar e sorrir.
Desejo um final feliz repleto de muitos sorrisos e de certezas para todos os nossos meninos.
Ao falcão, em particular, desejo asas “incansavéis” que o levem ao encontro dos sonhos.
Obrigada…Prof. António